BEBEU NA MINHA FONTE E SUJOU A MINHA AGUA “BEBEU NA MINHA FONTE E SUJOU A MINHA ÁGUA”.

Pai Euclides Menezes Ferreira

INTRODUÇÃO

O presente texto é uma resposta ao trabalho do Profª Mundicarmo Ferreti intitulado “Pureza Nagô e Nações Africanas no Tambor de Mina Do Maranhão” apresentado na X Jornada sobre alternativas religiosas em América Latina: sociedade Y religion em el tercer milênio” realizada em Buenos Aires, 03 a 06 de octubre Del 2000. Considerando a minha limitação de acesso ao mundo da Internet, devo dizer que só agora tomei conhecimento da existência do referido trabalho por intermédio de uma pessoa amiga que leu, copiou e me repassou. Apesar dessa distancia devo dizer que me sinto na obrigação de tecer comentários , esclarecer tópicos do texto e questionar as argumentações usadas durante o desenvolvimento do trabalho.

“A DIVERSIDADE CULTURAL – RELIGIOSA AFRO BRASILEIRA”

“No campo religioso afro-brasileiro, os terreiros Nagôs mais antigos e tradicionais da Bahia foram considerados tanto por pais-de-santo como por pesquisadores da área acadêmicos e sua ”nação” como mais preservada e /ou organizada. A partir do que foi convencionado na Bahia como “Nagô puro”, tem sido avaliado terreiros Nagôs de outros estados das mais diversas denominações: Candomblé, Xangô, Mina, Batuque e outros”. (FERRETTI,M.,2000, p.01).

A diversidade cultural-religiosa de base africana no Brasil gastada a partir do seu processo histórico – a vinda de africanos para o Brasil – possibilitou reelaborações, reconceituações, reterritorializações e reespacializações de modelos diversos de cosmologia ligada às diversas etnias africanas em solo brasileiro. A influencia desses diversos povos continua sobressaindo em quase todos os aspectos da vida brasileira como: densidade populacional, na lingüística, nas artes, na culinária...Influencia esta que não pode ser creditada a uma nação, pois o Brasil por conta de sua diversidade é formado mesmo no tocante a sua africanidade por uma pluralidade de cultura.

Considerando a riqueza da diversidade africana no Brasil, acredito eu que ao evidenciarmos a dito “Nagô puro” da Bahia como termômetro de avaliação para experiências que florescer em outros estados brasileiros estamos fortalecendo um certo “nagocentrismo”, marginalizando e reduzindo outras concepções filosóficas, excluindo a magnitude e o protagonismo de outras matrizes como os bantos e os jejes que foram e são tão importantes como os nagôs, sendo assim o referido instrumento de avaliação criado no contexto do estado da Bahia deve servir para mensurar somente a realidade daquele estado haja visto que tal escolha como referencia de julgamento de outras experiências fora da Bahia se pauta em bases autoritárias aonde constrói um centro irradiador de verdades que padroniza a todos pela estética dominante do “Nagô puro” da Bahia. O Maranhão não é melhor e nem pior que a Bahia, apenas diferente e por conta da sua diferença peculiar não pode ficar submetido aos parâmetros equivocados de uma intelectualidade descompreendida.

O SISTEMA DA CASA FANTI – ASHANTI

“È possível que muitos dos elementos” Fanti–Ashanti incorporados ao sistema da casa, tenha sido obtidos pelo seu pai-de-santo na Literatura (BARRETO, 1977, p.57), no contato com pesquisadores e praticantes da religião africana em outros paises e tenham sido por ele introduzidos progressivamente ao sistema da casa” (FERRETI, M., 2000, p.01). “os terreiros mais novos, ou sem uma vinculação direta com uma das casa “de raízes, são ávidos de conhecimentos atuais: Seus lideres fazem cursos de língua africana; pesquisam em bibliotecas, arquivos e museus; freqüentam outras casa; vão a congressos; compram disco, vídeos, livros...” (FERRETTI, M. 2000, p.12) Durante o desenvolvimento do texto “pureza nagô e nações africanas no tambor de mina do Maranhão” a autora persiste numa especulação maldosa e perniciosa a cerca do sistema da Casa Fanti – Ashanti. Deixando nas entrelinhas dúvidas sobre a veracidade e a legitimidade do que é praticado ali, como se a mesma não se sustentasse dentro de uma prática tradicional e fosse fruto de montagem a partirada “garimpagem” feita por mim em livros e conversa com pesquisadores, ou seja, uma “invencionice” da minha cabeça. A minha vida sacerdotal teve inicio no antigo Terreiro do Egito (Ilê Nyame) fundado em 12 de dezembro de 1864 por Massinokô Alapong (Basilia Sofia de Cumassi (Gana) – informação repassada por minha mãe–de–santo Maria Pia dos Santos Lago (Akô-Vonunkô) de acordo com a tradição oral, a mesma tradição que fundamenta a certeza de fundação da Casa de Nagô Abioton e a Casa das Mina Jeje, antes da promulgação da Lei Áurea em 1888.

Após o meu longo período de aprendizado (apesar de continuar aprendendo) foi me dado permissão de abrir a Casa Fanti – Ashanti em 1958. Posso garantir que todo o sistema religioso desenvolvido nesse terreiro de culto a Orixás, Voduns, Caboclos, Gentis e Nobres é fruto do que aprendi, experimentei e vivenciei nos terreiros do Egito e da Turquia fundado em 23 de junho de 1889, pela Ialorixá Anastácia Lúcia dos Santos (Akisi Obenã) além da convivência com os mais velhos durante toda a minha vida. Por mais que a literatura e o contato com os pesquisadores venham me acrescentar, considerando que eu não desprezo o conhecimento de ninguém, devo dizer que a prática com as divindades africanas não se aprendem em livros, sabedoria milenar não está a disposição em prateleiras e muito menos se adquire conhecimento tradicional em banco de universidade. Na minha trajetória religiosa eu tenho mãe e pai de santo, o meu conhecimento foi adquirido dentro da tradição oral e eu nunca precisei escarafunchar livros e nem especular junto a “pesquisadores” sobre o manejo com o culto das entidades, pois além da minha mãe e do meu pai, eu tive o privilegio de ser enriquecido com outras orientações repassadas por vodunsis importantes da época e que não eram da Casa das Minas.

A Casa Fanti – Ashanti por vários anos foi visitada por algumas vodunsis da Casa das Minas entre elas: Dilú, Rita, Maria Rouxinha, Celeste, Justina, Edwirgem, Elza, Amancinha e Neusa de Sogbó, essa até passava semanas na minha casa, mas, confesso que todas essas vodunsis foram fieis as suas Casa Matriz e nunca transmitiram nada para mim, assim como, Maria dos Remédios do Terreiro da Turquia que desde de menina viveu na Casa das Minas a partir de janeiro de 1996 até 10 de junho de 1980 conviveu na Casa Fanti Ashanti e foi bastante digna em não me repassar o que sabia da Casa das Minas, no entanto em relação às práticas do Terreiro da Turquia onde sou sucessor desde de março de 1972, foi que ainda me repassou algumas coisas.

O que me impressiona é que essa “fraude” ou “invencionice” chamada Casa Fanti – Ashanti alvo de tantas dúvidas e questionamentos feitos pela Professora Mundicarmo Ferretti em 2000, foi base de sustentação de sua Tese de Doutorado apresentada na USP em 1991 “Desceu na Guma: O Caboclo do Tambor de Mina em um Terreiro de São Luís – Casa Fanti- Ashanti que lhes conferiu título de doutora, notoriedade acadêmica e reconhecimento publico no Brasil principalmente no Maranhão, além disso a Casa Fanti Ashanti já tinha servido de “escada” para a mesma professora que teve a liberdade de recolher cânticos dos rituais de “mina, cura e baião” que se processam ali, resultando num disco de vinil “Tambor de Mina, Cura e Baião”, produzido pela Secretaria de Cultura do Estado do Maranhão, a mesma Secretaria que lançou o livro ““Desceu na Guma: O Caboclo do Tambor de Mina em um Terreiro de São Luís – Casa Fanti- Ashanti, resultado da sua Tese de Doutorado.

AS “NAÇÕES” DA MINA DO MARANHÃO

“Algumas características da Casa de Nagô mostram bem a sua distancia do “Nagô Puro” da Bahia: Na Casa de Nagô, a manifestação de entidades espirituais africanas (voduns e orixás) é tão “sutil” que às vezes, deixa de ser notada por observadores atentos; naquela casa os voduns e orixás não dão “ilá” (não “ bradam”), dançam em conjunto quase sem destaque individual, falam e doutrinam “ (puxam cantos), tal como os voduns na Casa das Minas Jeje”. Os Caboclos da Casa de Nagô adotam o mesmo tipo de manifestação de voduns e orixás” (FERRETTI, M., 2000 p.02).

O Maranhão é nacionalmente conhecido como a “Terra do Tambor de Mina” o principal Centro de Preservação da Cultura Jeje-Daomeana e Jeje- Nagô ancorado em dois grandes expoentes: A Casa de Nagô Abioton e a Casa das Minas Jeje Fon.

A Casa das Minas é única, não produziu filial, no entanto a Casa de Nagô Abioton, preparou várias sacerdotisas que abriram outros terreiros de mina, responsáveis estes por outras casas, todas tiveram seu apogeu, algumas já estão extintas e a maioria conseguiu com mais ou menos fidelidade seguir o modelo matriz da Casa de Nagô e esta apesar de apresentar peculiaridades próprias de um nagô desenvolvido no Maranhão que incorpora elementos das nações jeje, cambinda, cacheu, felupe, tapa e outras, não pode ser avaliado pelo parâmetro do “Nagô Puro” da Bahia, haja vista estarmos correndo o risco de padronizar e classificar uma experiência em detrimento de outra tendo como base uma escala de verdades aonde se diz “quem é perfeito” e “ quem não é perfeito”.

“As duas (Casa das Minas Jeje e Casa de Nagô), além de chefiadas por mulheres, nunca permitiram a entrada do sexo masculino na roda de voduns ou orixás” (FERRETTI, M., 2000, p. 02) Além das correções já feitas cabe aqui evidenciar mais uma de acordo com a tradição oral – tão propalada pela Professora Mundicarmo Ferretti – “com a chegada dos africanos na época da fundação das Casas mais antigas, existia homens sim que faziam parte da roda de vodum ou orixá, o fechamento no entanto para a participação masculina deu-se com desaparecimentos destes. Como as mulheres eram maioria, elas proibiram a entrada de outros na condição de noviços, ficando as referidas Casa sob o domínio das matriarcas”. A Casa das Minas, matriz daomeana, embora não tenha autorizado a abertura de outros terreiros jeje e não costuma reconhecer os Voduns que ele cultua em outras casas” (FERRETTI, M., 2000 p. 03).

O fato da Casa das Minas Jeje não reconhecer os Voduns que ela cultua, serem cultuados em outras casa, não significa a inexistência destes, pois nenhuma entidade espiritual pode ser comprada e nem titulada como de propriedade de ninguém, assim como Badé, Averekete, Doçu tem filhos na Casa das Minas e em outras casa os outros Voduns não pode ter? Que exclusividade é essa que confere a Casa das Minas o título de proprietária do patrimônio do culto Vodum no Maranhão? “...Voduns da Mina – Jeje, inclusive da família real do Dahomé, como Dadahô que segundo Dona Deni, (atual chefe da Casa das Minas) não costumava sair da Casa das Minas nem em visita à Casa de Nagô e de outros voduns daquela família” (FERRETTI, M., 2000 p. 03) No texto desenvolvido pela professora Mundicarmo Ferretti ela diz que a vodunsi Deni Prata Jardim comenta que os voduns da Casa das Minas especialmente os da família real do DAHOMÉ, como Dadahô não costumava sair da Casa das Minas, nem visita à Casa de Nagô, só “que uma época em que Amância Evangelista foi chefe da Casa das Minas a vodunsi Nana incorporou com Dadahô e desceu com outros voduns para visitar a Casa de Nagô em uma festa do período de 21 de janeiro.”

OS HERDEIROS DA CASA DAS MINAS

“Alguns dos mais conhecidos pais-de-santo da mina, como Jorge Itaci e Euclides Ferreira de São Luís (MA) e Francelino de Xapanã, em Diadema(SP)”... declaram possuir também alguma ligação com a Casa das Minas, o que nunca é confirmado pelas vodunsis daquelas cãs, ou costumam se apresentar como herdeiros e legítimos continuadores da religião africana trazida para o Brasil por escravos e do culto aos Voduns do DAHOMÉ “(FERRETTI,M., 2000. p.03).

A citação no texto a cerca dos mais conhecidos pais-de-santo da mina possuírem ligação com a Casa das Minas ou seja, legítimos herdeiros e continuadores da religião africana trazida para o Brasil, eu quero esclarecer o seguinte: - Eu, Pai Euclides Menezes Ferreira, filho do Terreiro do Egito não tenho ligação com a Casa das Minas e muito menos sou herdeiro dessa referida casa. Agora que eu sou um dos muitos zeladores e continuadores da religião dos Orixás/Voduns no Maranhão, eu sou, por que a minha raiz vem do Terreiro do Egito e o Terreiro do Egito se baseou na tradição dessas divindades.

Se no vídeo “Na Rota dos Orixás” de Renato Barbieri foram colocadas essas afirmações (de ligação com a Casa das Minas de herdeiros e legítimos continuadores...) com certeza elas não foram ditas por mim. Se a Casa Fanti – Ashanti está sendo apresentada como o único reduto de tradição africana e referencia no Brasil sobre culto aos Voduns do Dahomé (Benin) é problema de quem apresentou tal imagem, eu não tenho responsabilidade por esse tipo de distorção, vá reclamar para Renato Barbieri e Victor Leonardi senhora dona da verdade sobre a cultura jeje do maranhão, pois estou convicto que a Casa Fanti – Ashanti não seja o único, mas um dos poucos redutos a preservar essa cultura. Se no meu terreiro e no terreiro dos outros de tradição mina não existe voduns? Se não é verídico? Se é tudo manifestação e resultado de montagem verificada em livro e conversas com pesquisadores de acordo com as especulações levantadas pela professora Mundicarmo, se a Casa Fanti – Ashanti não tem o privilegio de ter pessoas que entram em transe com voduns, quem é o especialista que pode sentenciar esse verdadeiro final? A senhora?

Se a Casa Fanti – Ashanti não está ancorada nos preceitos da tradição e não possui Voduns, quem pode provar se na Casa das Minas -Jeje também tem Voduns? Quem nos garante que o grande berço do povo fon também não é reduto de mistificação? Será que só a Casa das Minas – Jeje foi agraciada e permitida por Olorum ou Mawu – Liça para receber e cultuar Voduns? O fato dos outros terreiros não terem os mesmo instrumentos e cânticos da Casa das Minas, já que eles descem da Casa de Nagô Abioton, e também não oferecem as mesmas iguarias de voduns que são oferecidas na Casa de Zomadonu tira o mérito e a magnitude dos espaços que reproduzem o modelo Nagô do maranhão? Quem é a senhora professora Mundicarmo Ferretti para dizer o que é certo e o que é errado na “Terra de Voduns?” na “Terra de Tambor de Mina?” quem lhe conferiu poder para questionar uma autoridade religiosa (como eu) no exercício religioso de Babalorixá há 46 anos? Quem lhe delegou autoridade para julgar a mim ou qualquer outro líder religioso da Mina ou de outra confissão religiosa de base africana?. Sinto muito mais o seu texto é a comprovação tácita que é uma pessoa ignorante e usa de maneira equivocada a sua mediana inteligência.

SOBRE A CASA FANTI-ASHANTI

“Pai Euclides abriu o seu terreiro em 1958 no sitio Igapara com o nome de Tenda de São Jorge Jardim de Oeira” (FERRETTI,M., 2000. p.10) A Casa Fanti–Ashanti foi inaugurada em 1º de janeiro de 1958 e desde sua fundação o nome original de batismo foi Tenda São Jorge Jardim de Oeira da Nação Fanti–Ashanti, essa identificação nunca mudou, entretanto a referida casa passou a ser popularmente conhecida como Casa Fanti–Ashanti por conta da senhora Eladir Pereira (Lalá) que tem ligação com a Casa de Nagô, desde sua infância, por que sua mãe era dessa casa e da falecida Doralice Rosa Correia (Dorinha) uma ex-mulher minha que me deu um filho de nome Alexsandro (Alex). Dorinha, filha de uma grande vodunsi da Casa de Nagô, Vitorina Reis (Vituca) quando em reunião na Casa Fanti- Ashanti em conjunto com Lalá sugeriu a idéia de chamar a “Tenda São Jorge Jardim de Oeira da Nação Fanti – Ashanti de Casa Fanti-Ashanti” já que era um nome grande, a referida idéia foi de prontidão aceita por Dorinha, sendo assim as duas passaram a divulgar essa marca que caiu no gosto popular.

Antes desse processo quando a Casa Fanti – Ashanti funcionava no sitio do Igapara em períodos de festas as pessoas diziam “vamos pro tambor na casa de Euclides”...”vamos pro sitio igapara.” Quando a casa mudou para o bairro Cruzeiro do Anil as pessoas passaram a dizer no período de festas “vamos pro cruzeiro”.... com diminuição do nome da casa, feito por Lalá e Dorinha, se popularizou o termo “vamos pra Casa de Fanti–Ashanti.”

O Estatuto da Tenda São Jorge Jardim de Oeira da Nação Fanti–Ashanti, foi publicado no Diário Oficial do dia 05 de novembro de 1974, é só procurar no arquivo que acha, se bem que de acordo com as mudanças dos homens da lei, a Casa Fanti–Ashanti já goza de um novo estatuto, mas, continua com o mesmo nome de origem.

A minha trajetória religiosa começou no dia 20/05/44 às 06:00h quando incorporei pela primeira vez na minha casa, provavelmente com caboclo e dancei no Tambor de Mina pela primeira vez no dia 13 de dezembro do mesmo ano com o meu Vodun, segundo mãe Pia esta no entanto, só foi me esclarecer quem de fato era essa entidade no momento da minha feituria no ano de 1950, foi quando eu vim saber que eu recebia “Rei dos Mestres” uma entidade popularmente conhecida aqui no Tambor de Mina e principalmente no Terreiro do Egito. Não sei explicar se devido a opressão, perseguição policial ou estratégia de sobrevivência, essa entidade em cada nação tem um nome diferenciado. Evidentemente, que “Rei dos Mestres” são vários, organizados por famílias ou qualidades variadas, devido a sua própria lingugem adquire outros nomes como Lissá, Oxalá, Zambi, Akompong...etc. Na década de 50 após longo período de preparação me foi dado a permissão de abrir o meu terreiro, essa trajetória como pai-de-santo (Babalorixá) iniciou-se no sitio Igapara, depois a Casa Fanti- Ashanti mudou-se para o Bairro do Cruzeiro do Anil aonde se localiza até hoje.

Em meados da década de 70, por necessidade ou marca do destino que me levou a “tirar mão de morto” (owô-ikú) após o falecimento da minha mãe-de-santo, me entreguei a família de Pai Adão na raiz de Ifá-Tinunké não por estar fascinado pelo “Nagô Puro” como enfatiza a professora Mundicarmo Ferretti, até porque a dita pureza nagô é por demais discutível, tendo em vista que todas as reelaborações de manifestações culturais e/ou religiosas negro-africanas em solo brasileiro adequaram-se as exigências de um outro contexto histórico em que o africano precisava construir referencias simbólicas que lhes trouxesse de volta a humanidade perdida.

Por conta dessa necessidade, as reelaborações desenvolvidas aqui se processaram em sitonia com valores equilibrados de várias nações, sendo assim o culto a Orixás aqui no Brasil desencadeado pelo Candomblé, pelo Xangô, pelo Tambor de Mina Nagô ... é diferente do que é praticado na África, como é diferente do que é desenvolvido em Cuba. O Culto ao Vodum do Brasil, desenvolvido pela Casa Jeje-Fon ou pelas Casas de Jeje-Mahin é diferente do que é praticado no Benin, como é diferente do que é praticado em Cuba e do Culto Vodun no Haiti. Diante desse breve histórico o Lissá a quem eu pertenço, talvez não seja o mesmo Lissá cultuado na Casa das Minas, porque existe uma boa variedade de Lissá, na verdade Lissá tem o seu próprio nome.

“A nação Fanti-Ashanti do Tambor de Mina mobilizou no passado, um grande esforço de elaboração e de pesquisa de Pai Euclides. Com o passar do tempo não tenho firmeza das” nações “da Casa das Minas e da Casa de Nagô e, como Pai Euclides gosta de viajar, ler, escrever, conversar com africanos, trocar idéias com pessoas de grande competência na religião afro-brasileira e com pesquisadores, foi dando lugar a outras entidades africanas: jeje-nago, jeje-mahin, ketu. Desse modo a” nação Fanti Ashanti foi sendo suplantada ou substituída por outra mais compartilhada e de maior prestigio no campo afro-brasileiro” (FERRETTI., M., 2000. p.12)

Em relação à fundação da Casa Fanti-Ashanti, a mesma nunca mudou de nação, do lado da mina, descendente direta do Terreiro do Egito ela é Ashanti-Nagô e pelo lado do Candomblé ela é Jeje-Nagô. Minha mãe-de-santo na mina era Maria Pia dos Santos Lago (Akô-Vonunkô) e no Candomblé era Maria das Dores da Silva (Talaby-Dêin) do Nagô Egbá, meu pai pequeno é da nação Jeje-Mahin, sendo assim o que eu posso ser?

BAIAO DE PRINCESAS DO TERREIRO DO EGITO, UMA HERANÇA ENCORPORADA AO CALENDÁRIO LITURGICO DA CASA FANTI – ASHANTI.

“Depois de uma tentativa de reativação (do Terreiro do Egito) por ele (Pai Euclides) realizado. Nos três últimos anos que precederam ao seu desaparecimento, Pai Euclides organizou ali, no dia 13 de dezembro, um ritual denominado “baião” que era realizado na época de sua mãe-de-santo e que foi por ele integrado ao calendário da Casa Fanti-Ashanti”.(FERRETTI.,M. 2000 p.04). Após o declínio do Terreiro do Egito, incorporei ao calendário da casa o ritual “baião” de princesas que era próprio do referido terreiro. Ao ver este fechar as portas, não poderia deixar uma importante tradição ficar nas lembranças do passado, eu, como filho do Egito, me achei no direito de executar este ritual, já que eu tinha (e tenho) preparo suficiente e casa aberta para o seu desenvolvimento.

HERDEIRO DO AXÉ ETÁ

“Em janeiro de 2000, um texto sobre a casa, distribuído por pai Euclides, falando de suas raízes pernambucanas enfatiza a sua relação com Maria das Dores que, embora também enfatizada em pronunciamento proferido em 1994, em Recife, no IV Congresso Afro-Brasileiro, aparecia com menos peso que os seus dois pais-de-santo (Manoel Papai e Raminho) em documentos mais antigos.”(FERRETTI., M., 2000 p. 06).

Quando eu falo que sou legitimo herdeiro do Axé-Etá, estou me referindo num primeiro momento como pessoa preparada pela minha mãe Maria Pia no Terreiro do Egito fundado pela africana Massinokou Alapong (Basilia Sofia) natural de Cumassi (Gana) e num segundo momento a minha referencia é Ifá-Tinuké, africana fundadora do Sitio de Pai Adão. Considerando que a minha mãe de santo no Candomblé Maria das Dores que saiu da Nação Xambá ou seja das mãos do pai de santo Artur Rosendo (o maior xambazeiro de Pernambuco) e passou a dar obrigação com Pai Adão. Além dessas duas referencias me refiro a uma terceira, a minha bisavó biológica Orokô d`Oshi Irosi (Cesária Maria) que também era africana, natural de Abeokutá. O resumo dessas referencias me faz afirmar que sou herdeiro do Axé-Etá, pois Axé é força e tudo de bom na língua Yorubá assim como, axé não se divide, pois axé é somo de energia e não fragmentação, Etá que significa três(03) me sustenta nessa três (03) raízes africanas – Se essas palavras chocam alguém eu peço desculpas.

SOBRE O DOCUMENTÁRIO NA ROTA DOS ORIXÁS

“Cerca de dois anos depois (da participação de Pai Euclides no vídeo NA ROTA DOS ORIXÁS), ele (Pai Euclides) se apresentou como Vodunso-Hunsudahou Lissá-Non (Sacerdote de Lissá),” amigo de Avi-madjé-non do Benin, com quem se relacionou através daquele vídeo (FERREIRA, 2000 pg.03) e de quem passou a ter um retrato pendurado na parede da Casa Fanti Ashanti” (FERRETTI., M. 2000. p. 06).

O documentário ‘NA ROTA DOS ORIXÁS “de Renato Barbieri ajudou a projetar ainda mais a minha pessoa assim como a Casa fanti Ashanti para o mundo, estreitando os laços de identificação entre o continente africano e o Brasil”.

Sobre este documentário gostaria de esclarecer as seguintes questões:

  1. A minha relação com Avi-madjé-non (sacerdote Benense) aconteceu através do Professor Luis Nicolau que constantemente está no Benin fazendo pesquisa.

  2. A minha identificação enquanto Sacerdote de Lissá ou Vodunsu-Hunsudahou Lissá-Non precisa ser esclarecida de acordo com a língua fon:

Vondunsu: significa pessoa do sexo masculino

Hunsudahou: significa grande vodunsu

Lissá-Non: significa sacerdote de Lissá

Língua Fon: idioma falado por Avi-madje-non (Sacerdote Beniense) que aparece no documentário “NA ROTA DOS ORIXÁS”

Quem me considerou Sacerdote de Lissá ou Vodunsu-Hunsudahou Lissá-Non foi o próprio Avi-madjé-non, uma gentileza que se estendeu através dos presentes remetidos a minha pessoa por ele, tão certo, que no bastão cerimonial que me foi enviado está gravado Lissá – Non. Quem quiser averiguar, as portas da Casa Fanti-Ashanti estão abertas para qualquer especulação ao vivo.

“No vídeo NA ROTA DOS ORIXÁS tratando das relações Brasil – África, dá um destaque especial, tanto a Pai Euclides quanto a Avi-madjé-non, Sacerdote de Vodun do Benin. Este, impressionado com a gravação feita pelo cineasta na Casa Fanti – Ashanti, onde ele canta em fon invocando os ancestrais envia através da mesma equipe, alguns presentes a Pai Euclides e grava o seguinte depoimento: (FERRETTI,M., 2000 p. 06).

“Aqueles que partiram para o Brasil guardaram sua identidade, isso é que me emocionou na mensagem de Euclides.” Os escravos levaram o vodun da África e há os voduns que foram com os escravos e os que ficaram em Ouidah.. Por isso o vodun é adorado tanto no Benin como no Brasil”( Avi-madjé-non).

  1. Quanto ao depoimento que o sacerdote beniense faz e que também está no texto da Professora Mundicarmo Ferretti, aconteceu de forma espontânea, eu não o forcei a expressar nenhuma fala a meu respeito, tudo o que foi dito, foi por vontade própria. “A música grava pelos ceneastras na Casa Fanti-Ashanti foi escutada no Benin com grande emoção por Avi-madjé-non e seus acompanhantes e provocou uma emoção especial num ancião que foi apresentado como o sumo – Sacerdote Adjahô-Houmassé que batendo na cabeça falou.”(FERRETTI,M., 2000 p.07). “Eu peço ao senhor uma aproximação se faça entre os dois paises porque estamos reunidos diante do mesmo moinho que esmaga os condimentos”. Eu considero que essa história é a história de duas crianças que foram separadas e que nunca se viram. Cada um deles teve filhos e esses filhos nunca se viram, mas um dia a ocasião foi dada a seus descendentes para se conhecerem. Esse reencontro seria alguma coisa inexplicável. Sua alegria seria inestimável e nós nem poderíamos qualificá-la. É uma coisa extraordinária.”

  2. Quanto ao canto “Ô mimala, mimala...” que emocionou toda aquela gente do Benin e principalmente o Sacerdote Adjahô-Houmassé que fez considerações do documento e transcrito para o texto da Professora Mundicarmo Ferretti, eu também não tenho participação nas suas palavras, eu não pedir ao senhor Adjahô tais considerações. Na verdade essa canção “...Ô mimala, mimala...”, quem me ensinou foi o beniense Olivier Gbegan e quando ele me ensinou não pediu segredo ou resguardo. Eu, Euclides Menezes Ferreira sei mais de duas dezenas de cânticos em língua Ewe-Fon e Jeje-Mahin, que não me foram ensinados pó Olivier Gbegan e muito menos cantadas pela Casa das Minas. “No vídeo NA ROTA DOS ORIXÀS é apresentada em outra seqüência, a volta dos cineastas do Benin e a sua chegada na Casa Fanti – Ashanti trazendo para Pai Euclides uma mensagem gravada para Avi-madjé-non e alguns presentes enviados por ele, entre os quais um bastão cerimonial, que foi recebido ritualmente por Pai Euclides e por vários filhos da Casa> Mas na recepção, eles aparecem caracterizados de uma forma pouco usual na mina ou nunca vista na casa”. Pai Euclides apesar de sem camisa, apresenta-se de modo semelhante ao sacerdote beniense Avi-madjé-non (com pano branco na cabeça, chapéu de feltro, etc) e as filhas da casa como às antigas Vodunsis Gonjaí da Casa das Minas, quando em transe com tobôssis (de cabelo solto, ombro nu, manta de conta missanga etc...) FERRETTI.M.,2000 P.(07)

  3. Sobre a forma de receber os presentes que vieram da África para mim, remetidos por Avi-madjé-non, realmente eu criei uma solenidade especial para mim e meus filhos(as) de santo, essa solenidade não tem nada haver com a Casa das Minas, afinal de contas a minha Casa não descende da Casa das Minas e muito menos estabelece algum vinculo de parantesco familiar. Apesar de respeitá-la muito, pelo seu valor histórico, religioso e por ser esta uma das principais raízes geradoras da identidade do povo negro no Maranhão. Até porque, ninguém mesmo que quisesse não poderia lhes tirar seus méritos, “O QUEREBETAN DE ZOMADONU é o QUEREBETAN DE ZOMADONU e ponto encerrado.” O que eu não posso admitir é essa especulação provocativa da professora Mundicarmo Ferretti criando “animosidades” e “conflitos” de relacionamentos a troco de vaidades pessoais, o que demonstra uma irresponsabilidade muito grande frente ao contexto que estamos vivendo, aonde a intolerância religiosa contra o “povo de santo” procuram brechas para nos enfraquecer, impedindo atitudes coletivas que se contraponham a essas práticas abusivas.

  4. Em relação ao uso de manta de missangas, esta me parece ser tradicional indumentária do Tambor de Mina do Maranhão e o seu uso se perde pelo tempo, principalmente nos terreiros antigos, algo que me lembro desde criança nos rituais apropriados pelas vodunsis nos terreiros do Egito, Turquia, Cutin, Engenho, de Maxiamiana e outros. Não é do meu conhecimento ou de outros pais ou mães de santo que descendem de Casas antigas saberem que Mãe Andresa que chefiou a Casa das Minas por 04 décadas tivesse proibido o uso dessa indumentária, a mim parece que alguém está querendo ditar normas “travestidas” de cuidado tradicional, normas estas instituídas por agentes estranhos ao universo da tradição religiosa afro-maranhense. “No vídeo NA ROTA DOS ORIXÁS de Renato Barbieri, Pai Euclides parece também ligado a duas características que, apesar de muito importante na religião africana, não são encontradas na tradição Jeje do Maranhão: o culto a Exu e o jogo de búzio.” (FERRETTI.M.,2000. p.08).

  5. Eu quando criança e na adolescência e depois de adulto, durante toda a minha trajetória de formação religiosa no Terreiro do Egito e no Terreiro da Turquia, aprendi com os mais velhos que deveriam se pronunciar a palavra EXU. Por precaução ou resguardo, a tradição do Tambor de Mina no Maranhão substituiu a palavra “Exu” por “o homem” “o compadre” etc. A precaução foi tanta que se chegou a admitir que o Tambor de Mina não manejava com a força de Exu. Toda essa particularidade reservou ao Maranhão um traço peculiar na concepção da tradição afro-religiosa aqui desenvolvida e as forças da natureza manejadas pelo culto orixá/vodun. Fora as “precauções” e os “resguardos” o Tambor de Mina cultua sim, EXU; apesar da maioria dos terreiros de raiz não permitirem o “transe” com essa força, não significa que ela seja descartada pois a aprtir do momento em que o ritual do tambor de mina tem sua abertura com o canto IBARABÔ é claro e evidente que “o compadre ou o homem” está sendo cultuado.

SOBRE O ENCONTRO DA VODUNSI CELESTE DA CASA DAS MINAS JEJE NO BENIN

“Por ocasião do festival de cultura do vodun Ouidah/92, Dona Celeste cantou no Benin uma doutrina da Casa das Minas durante a inauguração de um monumento em homenagem aos que atravessaram o Atlântico num navio negreiro, provocando uma grande emoção no beniense. É bem possível que se tenha procurado reproduzir no vídeo NA ROTA DOS ORIXÁS de Renato Barbieri aquele emocionante encontro. (FERRETTI,M. 2000.p.09). Quando a autora do texto “PUREZA NAGÔ E NAÇÕES AFRICANAS NO TAMBOR DE MINA NO MARANHÃO” cita a participação da Vodunsi Maria Celeste ter cantado (1992) no Festival de Cultura de Vodun em Ouidah e o cântico ter sido entoado conjuntamente por vários benienses isso não é de se admirar, afinal de contas, Dona Celeste sabe perfeitamente os cânticos de voduns e conhece sua raiz desde que ingressou na Casa das Minas. Afirmo, no entanto, que não tenho como reproduzir esse momento em Ouidah quando a mesma cantou pois eu não estava lá, eu não vi nada a respeito e nem ouvir, e muito menos presenciei algum depoimento sobre esse fato.

CONSIDERAÇÃO FINAL DENTRO DESSE TÓPICO-DOCUMENTÁRIO:

“NA ROTA DOS ORIXÁS”

Diante de tantos questionamentos gostaria de finalizar essa discussão com uma observação que não foi feita ainda, mas que poderá ser objeto de futura especulação. EM UM DOS PAREDÕES EM Abomey no vídeo “NA ROTA DOS ORIXÁS” aparece no meio das projeções das imagens feitas em África uma foto ampliada da minha mãe de santo Maria das Dores, daqui a pouco, vão desenvolver uma investigação e levantar a idéia de que foi eu que mandei pintar a referida foto para que a mesma viesse aparecer no documentário.

SOBRE O MEU INTERESSE EM RELAÇÃO A AFRICA

“A história de Pai Euclides, contada por pesquisadores ou registrada em livros por ele publicados, mostra no entanto, que a sua identificação com o Vodun Lissá e o seu desejo de ligação direta com a áfrica, ou com terreiros abertos por africanos são bem antigos”(FERRETTI,M., 2000 p.10). Eu estou e sempre estive interessado nesse intercambio com o continente que remonta as minhas raízes. Sou cultuador, zelador de orixás-voduns e também por não esquecer que sou negro e de lá vieram os meus antepassados e a religião que eu sou praticante, por isso me interessa remontar as minhas linhas históricas, interrompidas com a violência do tráfico de escravos, acredito que este seja o desejo de todo negro consciente da sua identidade acalenta no seu coração. Diante dessas considerações me interessa manter relações não só com o Benin, mas com qualquer outra localidade da África, para saber falar com mais precisão da terra dos meus ancestrais.

DESENCANTAMENTO COM O KETU

“Fala-se atualmente que Pai Euclides está se “desencantando” com o Ketu, modificando o repertório do Candomblé e introduzindo músicas jejes, que ele foi aprendendo ao longo dos anos e que em breve estará lançando um CD com o novo repertório” (FERRETTI, M., 2000 p.09) Quando se diz “...fala-se atualmente que Pai Euclides está se desencantando com Ketu...” o sujeito fica oculto e ninguém sabe a fonte de tal informação. Para mim, sujeito oculto em qualquer situação é símbolo de fofoca e artifício de intriga, além do mais, acho que tem alguém (já que não sei a fonte da informação sobre o meu desencantamento com o Ketu e a gravação do CD em cânticos de língua fon), querendo colocar palavras e canções na minha boca, eu não tinha e nem tenho pretensão de gravar CD com cantos da língua fon.

O SILENCIO DE LISSÁ

“Numa festa de Santa Barbara, sem ainda saber que estava grávida (a mãe de Pai Euclides) foi abordada por aquele vodun (Lissá) incorporado em D. Almerinda, sua amiga (amiga da mãe de Pai Euclides) que anunciou a gravidez pedindo a ela o menino que estava no seu ventre (FERREIRA, 1987 p.37). Pai Euclides afirmou que o pedido do vodun (Lissá) foi atendido por ela (sua mãe), mas não explicou como se deu aquela comunicação já que na Casa das Minas o vodun Lissá é mudo. (FERRETTI, M., 2000 p.10) Está bem dito, Vodun Lissá na Casa das Minas é mudo (como diz a Professora Mundicarmo Ferretti, reafirmando a informação repassada pela vodunsi Deni da Casa das Minas). O fato é, se lá ele é mudo, deve ter algum motivo que a mim não interessa. O curioso que na África ele não é mudo, e na minha Casa ele também não é obrigado a ser, assim como não é obrigado, a ser na casa de ninguém.

OS CABOCLOS DO TAMBOR DE MINA NA CASA FANTI-ASHANTI.

“Mas tudo indica que, durante muito tempo era mais conhecida (a Casa Fanti-Ashanti) como o Terreiro de Tabajara, de Juracema (entidades caboclas) e de Mãe Maria, entidade feminina que, apesar de não ter incorporado nele (Pai Euclides) no Terreiro do Egito, foi muito importante nos primeiros anos da casa (Casa Fanti-Ashanti). (FERRETTI,M., 2000 p.10) Quando se fala no Terreiro de Tabajara, de Juracema ou Mãe Maria estamos falando do Gentil do caboclo que com o Dom de resolver criar “canções” a respeito de situações dar resposta ou mensagem de cunho filosófico. Em determinada ocasiões, quando recebemos a visita de um outro Terreiro pedindo licença com cânticos em português, aguardando uma resposta também através de cânticos em português. Num desses momentos quando a Casa Fanti Ashanti recebeu a visita de um determinado Terreiro e este entoou cânticos pedindo licença, um dos caboclos da casa elaborou uma resposta que foi assim cantada:

“... pode bair até romper o dia o terreiro é de Tabajara é de Juracema é de Mãe Maria...

A execução desse cântico, entoado na corrente de caboclo me parece não ter incomodado as divindades da Casa, no entanto parece que acabou incomodando alguém.

NÃ-AGOTIMÉ NAS ORAÇÕES DA CASA FANTI-ASHANTI

“Pai Euclides inclui entre os Eguns cultuados na Casa Fanti-Ashanti, Na Agotimê, a mãe do Rei Guezo, vendida como escrava.” (FERRETTI,M., 2000 p.11) De acordo com Pierre Verger Na-Agotimé, a mãe do Rei Guezo, rainha africana transformada em escrava e vendida para o Brasil, deva ter sido a fundadora da Casa das Minas Jeje no Maranhão, sinto-me na condição de cultuador e zelador de orixá/vodun consciente e muito bem resolvido com o papel que desempenho no Maranhão de incluir e fazer chamada a cerca da memória entre outros nas minhas orações (orikis) por se tratar de forças ancestrais que merecem respeito, atenção e consciência de reconhecimento.

CONCLUSÃO

O trabalho da Professora Mundicarmo Ferretti intitulado “PUREZA NAGÔ E NAÇÕES AFRICANAS NO TAMBOR DE MINA NO MARANHÃO” se baseia em especulações do passado e argumentações duvidosas e discutíveis que não se assentam em bases sólidas e por isso mesmo sujeitas a interpretações oportunistas, o que em determinados momentos beira a vulgaridade e a incoerência. Considerando tantas avaliações desferidas contra mim e o que é de se estranhar é que a Professora Mundicarmo Ferretti foi uma das pessoas que mais me auxiliou na projeção da minha imagem com Pai de Santo e a minha Casa como reduto de práticas religiosas que procuram manter a tradição do Tambor de Mina, pois além dos seus depoimentos públicos (é bom que vejam um anexo o trecho de uma entrevista que a Professora Mundicarmo Ferretti concedeu ao Programa Janela Cultural da Rádio Universidade FM (São Luís), datada em 13/07/2003 no horário das 20:00 às 21:00 horas de produção da Professora de Comunicação Rose Ferreira da Universidade federal do Maranhão, transcrito para este trabalho), depoimento estes que atestam a minha seriedade e a seriedade da Casa Fanti-Ashanti, a professora utilizou a sua influencia acadêmica e conseguiu apoio e recursos financeiro através da Secretaria de Estado da Cultura do Maranhão na época da SEMA e hoje Sub-Gerencia de Cultura, para a produção de um de seus trabalhos de pesquisa, um disco de vinil “TAMBOR DE MINA, CURA E BAIÃO “ produzido a partir da garimpagem de cantos desses rituais próprios da Casa Fanti-Ashanti, lançado em 1986. Além disso a conquista da sua titularidade de doutora se deu com a sua Tese de Doutorado em Antropologia Social apresentada na USP em 1991, Tese esta que teve como objeto de pesquisa a mesma Casa Fanti-Ashanti através do título ‘DESCEU NA GUMA: O CABOCLO DO TAMBOR DE MINA EM UM TERREIRO DE SÃO LUIS – CASA FANTI-(ASHANTI).

Em 1993 a doutora lançou novamente mão de sua influencia acadêmica e conseguiu o apoio financeiro dentro da estrutura do estado para a produção do seu livro fruto da mesma Tese de Doutorado. Com tantas “arapucas” armadas no meu caminho, a conclusão que chego é que a Professora Mundicarmo Ferretti ao solicitar o pedido de entrada em minha casa, sentou-se na minha mesa, comeu da minha comida, bebeu do meu vinho e cuspiu no prato que se serviu. Travestida de um comportamento de “zelo” sobre o Patrimônio Cultural Afro-Religioso do Maranhão, a doutora se confere de autoridade com um martelo na mão para sentenciar julgamentos a partir de parâmetros do que é certo e do que é errado concernente ao Tambor de Mina Maranhense. Diante de tantas arbitrariedades, a Professora Mundicarmo Ferretti coloca em “xeque mate” a liberdade de futuras antropólogas (os) no tocante ao exercício de futuros trabalhos de levantamentos (sejam eles de qual natureza for) ditos “científicos.” Estes ao não respeitarem os caminhos da ética precisam ter as trilhas que os levam até os terreiros limitas pelo resguardo e a vigilância constante das nossas riquezas patrimoniais afim de que não ultrapasse as fronteiras do campo da pesquisa e nem venham cometer apropriações indevidas, tomando para si uma fala que não lhes pertencem, de uma tradição que sofreu toda a forma de perseguição e estigma. É preciso que a fala sobre as religiões de base africana fique acima de tudo sob a tutela de suas comunidades de origem, sob o controle de seus sacerdotes que mesmo não tendo o preparo acadêmico são verdadeiras(os) bibliotecas vivas de conhecimento e sabedoria.

O trabalho cientifico que qualquer área do conhecimento é de fundamental importância para que a sociedade entenda a riqueza filosófica que se desenvolve nas comunidades-terreiros, no entanto, reservada as devidas proporções necessárias se faz o estabelecimento de regras para que pseu-doutores equivocados não se empolguem querendo ser a consciência externa de uma tradição. Sobre este aspecto não lhes foram dada nenhuma permissão de falar por nós praticantes e vivenciadores dos cultos afro-brasileiros nem muito menos serem termômetros da verdade. Por isso Professora Mundicarmo Ferretti, recolha-se ao seu limitado papel, a senhora é só uma pesquisadora, e não uma autoridade religiosa. Ao apresentar um trabalho que coloca dúvidas sobre a minha trajetória religiosa, num evento fora do Brasil, não me dando a chance de conhecê-lo no mesmo período sendo lançado na Internet, uma tecnologia que não tenho acesso, e só tomei conhecimento através de “terceiros” me dá a entender que a Senhora agiu de má fé, falou de mim às escondidas, puxou o meu tapete com a intenção de me derrubar mas não provocou a minha queda. Para finalizar a senhora “bebeu na minha fonte e sujou a minha água”, só que, Olorun/Mawú-Lissá já purificou a minha água para mim e para quem tiver sede, a fonte não secou. Eu só peço encarecidamente que a senhora NÃO DISPONHA MAIS do meu conhecimento e da minha vivencia dentro da religiosidade que agora em 20 de maio de 2004 completou 60 anos de exercício religioso.

Euclides Menezes Ferreira

Talabyan da Casa Fanti-Ashanti